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Evidências para Líderes

Propósito melhora o desempenho? O que uma pesquisa no Polo Industrial de Manaus revela sobre performance organizacional

Publicado em 28 de julho de 2026 • 6 min de leitura

São quase 18 horas.

A fábrica continua operando.

Um gerente fecha mais um relatório.

A produtividade permanece praticamente no mesmo nível há meses.

O turnover aumentou.

Novos programas de reconhecimento foram implementados, benefícios foram ampliados e metas continuam sendo acompanhadas de perto.

Mesmo assim, alguma coisa parece faltar. Os resultados parecem ter encontrado um teto.

Não é um problema de planejamento. Não é falta de indicadores. Também não é ausência de metas.

A pergunta que continua sem resposta na rotina de quem lidera pessoas é outra:

O que realmente faz alguém entregar o seu melhor?

Foi essa pergunta que motivou minha pesquisa de doutorado, realizada com colaboradores de empresas do Polo Industrial de Manaus (PIM). Mais do que apresentar dados acadêmicos, o objetivo desta série é traduzir evidências em reflexões práticas para líderes que buscam resultados sustentáveis.

Quando os indicadores deixam de explicar tudo

Durante muito tempo, a resposta para a performance parecia simples: definir metas claras, acompanhar indicadores, oferecer incentivos financeiros e cobrar resultados.

Esses elementos continuam importantes. Nenhuma organização sobrevive sem boa gestão.

Mas a experiência cotidiana das empresas sugere que essa explicação clássica já não é suficiente para compreender o comportamento humano em ambientes complexos.

Foi por isso que decidi investigar um conceito que a literatura de negócios frequentemente chama de “espiritualidade no trabalho”.

Antes de avançar, vale um esclarecimento fundamental: isso não tem relação com religião no ambiente corporativo. Não envolve cultos, orações ou incentivo a crenças.

Na ciência da administração, o conceito trata de como as pessoas vivenciam seu trabalho e suas relações. Ele se apoia em três pilares básicos:

A grande questão era: essas dimensões intangíveis realmente se relacionam com a performance ou são apenas um discurso atraente e distante da realidade?

Para responder, o estudo foi aplicado no Polo Industrial de Manaus, um dos maiores e mais competitivos centros industriais do país, onde o desempenho é medido continuamente e decisões precisam gerar resultados concretos.

“Os indicadores mostram o resultado. Nem sempre explicam como ele foi construído.”

O que os dados reais mostraram

A pesquisa envolveu colaboradores de diferentes níveis hierárquicos em organizações de capital brasileiro, americano, japonês e chinês instaladas no PIM. Após análises estatísticas rigorosas, a resposta foi clara: existe uma associação positiva e estatisticamente significativa entre essas dimensões humanas e o desempenho organizacional.

No entanto, o dado mais valioso reside no detalhe: as variáveis não se comportaram da mesma forma. Algumas exerceram forte impacto na performance; outras, não.

O que realmente fez a diferença

Entre os fatores analisados, dois se destacaram de forma isolada:

1. Trabalho como Propósito

Quando as pessoas compreendem a importância do que fazem e enxergam como sua contribuição se conecta aos objetivos da empresa, a performance sobe. Muitas corporações exibem missão nas paredes, mas poucas transformam isso em rotina. Existe uma distância enorme entre conhecer a missão institucional e sentir significado na própria tarefa.

2. Senso de Comunidade

Refere-se à qualidade das relações, ao sentimento de pertencimento e à confiança mútua. Processos e tecnologias podem ser comprados, mas relações de confiança não são implantadas por decreto. Onde há confiança, a comunicação flui, problemas aparecem mais cedo e o conhecimento circula sem barreiras.

O que não apresentou associação estatística

Na amostra estudada, fatores como “ambiente interno tranquilo” e “agilidade e crescimento” não demonstraram associação direta com o aumento de desempenho organizacional.

Isso não significa que devam ser ignorados. Significa apenas que, isoladamente, eles não explicam a variação da performance da forma como o propósito e a comunidade explicam.

O que esses resultados mudam na prática da liderança?

Se o propósito e o senso de comunidade estão diretamente associados aos resultados, o que muda na forma como os líderes gerenciam suas equipes hoje?

Esses achados não substituem a disciplina da gestão. Propósito não substitui processos bem definidos, planejamento estratégico ou metas. O que os dados mostram é que a liderança precisa expandir o olhar. O desempenho nasce das estruturas, mas é sustentado pelas relações.

Propósito é uma experiência diária

Nenhuma campanha de comunicação interna substitui a conversa direta. A conexão com o propósito acontece no feedback, na explicação das prioridades e na coerência entre o que a liderança fala e o que ela realmente reconhece no dia a dia.

Comunidade não significa ausência de conflitos

Ambientes saudáveis convivem com divergências e decisões difíceis. Uma comunidade forte não é aquela que evita o conflito, mas aquela que possui maturidade e confiança para enfrentar os problemas com respeito e foco na cooperação. Pertencer não exige concordar com tudo, exige compartilhar o mesmo objetivo.

> “Propósito não substitui estratégia. Mas influencia diretamente a forma como ela é executada.”

Da pesquisa para a gestão

Durante décadas, o foco da gestão esteve no aperfeiçoamento de sistemas e estruturas. Eles continuam essenciais. Mas entender como as pessoas atribuem significado ao trabalho é a fronteira menos explorada para quem busca competitividade sustentável.

A boa notícia é que construir propósito e comunidade não exige investimentos milionários. Exige consistência nas interações diárias e práticas gerenciais transparentes.

Será que estamos medindo tudo o que de fato influencia os resultados? Os dashboards capturam custos, prazos e volumes, mas ignoram o que move a execução.

Produzir ciência tem valor, mas seu impacto real só acontece quando o conhecimento apoia líderes a tomar decisões melhores no chão de fábrica e nas salas de reunião. É exatamente esse o papel do conhecimento aplicado à gestão.

No próximo artigo desta série, vamos analisar o passo seguinte: Qual é o papel direto da liderança na construção desse senso de propósito?

Sobre a EZERJOY

Na EZERJOY, acreditamos que o conhecimento só cumpre plenamente seu papel quando melhora a prática.

Transformamos evidências em decisões, pesquisa em gestão e teoria em soluções aplicáveis à realidade das organizações.

Viviane Costa Novo é CEO e fundadora da EZERJOY, Administradora, Doutora em Administração e especialista em estratégia e desempenho organizacional.

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